Zelda e a tiazinha vendedora de Yakult

Zelda e a tiazinha vendedora de Yakult

Você conhece Yakult, certo?

Talvez até mesmo antes de jogar qualquer game, Yakult tenha sido o primeiro produto de origem japonesa consumido por você. Acredito que faça parte daquele hall de invenções tão populares que muita gente sequer sabe de que país vem. Esse leitinho é pop demais. Lembro que uma das minhas comunidades preferidas do Orkut era a “Queremos Yakult de 2 litros”, embora hoje, uns 15 anos depois, eu suspeite que essa ideia não seria aprovada pela minha flora intestinal.

Um dos sucessos desse lendário leitinho fermentado se deve a, entre vários fatores, o visionarismo dos fundadores da empresa, que surfaram na onda dos alimentos probióticos em meados da década de 30, bom como a um extremamente coeso e simpático sistema de venda porta-a-porta. Yakult é comercializado tanto nos grandes conglomerados varejistas quanto na birosquinha do Seu Zé, mas no Japão você também pode adquiri-lo através das Yakult ladies: um exército de simpáticas senhorinhas treinadas para ir de porta em porta oferecer o produto e espalhar a palavra dos lactobacilos vivos, divulgando os (alegados) benefícios à saúde contidos naqueles 65mL.

Em minha humilde residência em Osaka recebo semanalmente uma carismática Yakult Lady, de quem compro meu estoque semanal. A última vez em que nos encontramos teria sido apenas mais uma visita padrão não fosse pela descoberta inusitada que se sucedeu.

A moça contava sobre as vantagens para a qualidade do sono garantidas por uma nova versão da bebida, no que minha mulher começou um verdadeiro exposed da minha pessoa, explanando que o produto poderia ser uma boa opção para mim, marido nerd que fica até tarde jogando game após a família adormecer.
A senhorinha, como boa vendedora, contemporiza:

– Sei como é, eu às vezes jogo também. O que o senhor gosta de jogar?
Na hora, meu reflexo foi sentir certa pena da Yakult Lady, por aparentemente ter sido forçada a participar de uma conversa sobre games, algo pelo que uma vendedora de meia idade jamais se interessaria, segundo meu preconceito de gamerzão macho-alfa topezeira.

– Bem, mês passado lançou a nova versão de um jogo chamado Monster Hunter, está fazendo muito sucesso. Eu comprei e estou gostando muito, daí acabo dormindo tarde… – Respondi sem muito ânimo, e logo a moça retrucou:

– Ah, meus filhos gostam também. Mas eu prefiro RPGs clássicos, ou os jogos da franquia Zelda.

Nesse momento meus olhos quase se encheram d’água e me senti em meio a um fanfic um tanto esquisito. Ainda incrédulo, comecei a timidamente falar que sou fã de Zelda, com muitas horas no Breath of the Wild. A tiazinha não parou por aí e explicou que achou interessante a proposta de elevar o estilo open world a um novo patamar, mas que também sentiu um pouco de falta da lore tradicional dos dungeaons, onde geralmente se inicia com quase nenhum item e os puzzles são mais longos.

Foi quando eu me rendi de vez e aceitei estar diante de uma senhorinha vendedora de Yakult zeldeira hard core, ou na gíria japonesa, gachi-zei. Cheguei até a dizer que ultimamente tinha começado a jogar a versão de Wii U do Wind Waker, no que ela prontamente retrucou dizendo ter gostado muito da repaginação em HD e melhorias de jogabilidade, mas também que lamentava muito a Nintendo ter tomado decisões equivocadas na forma como o hardware foi lançado, o que impediu que bons jogos tivessem alcançado um sucesso maior.

Obviamente não é toda mãe de família japonesa que conhece a franquia protagonizada por Link, e nem todo mundo no Japão saberia opinar sobre as estratégias de lançamento dos consoles da Nintendo ao longo dos anos. Mas esse pequeno episódio ajudou a ilustrar como a Big N e seus personagens estão encravados no imaginário popular japonês. Ajudou também e eu me tornar um jovem tiozão um pouco menos preconceituoso. E, de alguma forma, ajudou também a deixar o meu Yakult diário mais gostosinho.


[A coluna acima reflete a opinião do redator e não do portal Project N]