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Zelda - Mitologia & Inspirações

Zelda – Mitologia & Inspirações

O que é um mito? Mitos são contos muito antigos, construídos pelos primeiros povos que habitaram o planeta. São coisas que descendem des do início da era paleolítica, e retratam também as crenças dos primeiros povos. Mitos podem ou não definir fenômenos reais, mas geralmente estão sempre ligados ao sobrenatural, com personagens e deidades fíctícias. Uma narrativa de teor fantástico e simbólico, construída para explicar fenômenos e/ou causas naturais, e constituir a filosofia primitiva. Entre muitas outras definições, que no fundo, acabam por dizer a mesma coisa.

O conjunto de mitos, é o que chamamos de mitologia. É quando criamos diversos mitos distintos, mas que de alguma forma, eles ainda conseguem ser o mesmo, e retratar apenas mais um episódio de uma história. Como por exemplo, a mitologia(judaico) cristã, que retrata a existência de um ser sobrenatural, onisciente , onipresente e onipotente. Anjos, demônios, dragões e feras grotescas, são outros dos seres sobrenaturais que constituem a os mitos do povo hebraico. Outro exemplo de mitologia, é a clássica mitologia grega, que retrata os acontecimentos do mundo criado pelo Caos. Mitos e mitologias podem transcender a realidade e retratar acontecimentos que nos façam refletir aspectos políticos e sociais, portanto, podem sim ser importantes para formar o caráter de um povo, uma vez que estabelecem valores morais, e formas de pensar/agir

Com o atual estudo de mitologias, muitas empresas usam de antigos mitos para basear-se em seus produtos finais, como o caso da Nintendo, e a franquia The Legend of Zelda, que por incrível que pareça, tem origens nos mais diversos povos antigos. Não com os mesmos nomes, nem com mesmos personagens, mas sim, inspirados em cima deles. Confira hoje, as inspirações mitológicas, e semelhanças dentro da série Zelda. Repare que, durante o texto eu utilizei de conhecimentos que adquiri estudando movimentos neo-pagãos, e mitos em seus mais diversos tipos. As fontes para tais informações estão em muitos livros destinados para o público interessado no paganismo de forma geral

Um mito de muitas caudas

Por ser uma série de jogos desenvolvida originalmente no Japão, Zelda se inspira em mitos japoneses e contos budistas. Como por exemplo em Majora’s Mask, onde observamos personagens com máscaras de raposas. Em uma rápida viagem ao Japão, você vai encontrar estátuas de raposa, pois para estes povos, era considerada um animal sagrado. Um dos tipos de raposa derivados dessa mitologia, são as Kitsunes que são raposas que ganham em média uma cauda a cada 100 anos, e ao completar seus novecentos anos, se tornam uma Kyuubi.
Agora, em Majora’s Mask temos Keaton , que se assemelha muito á um destes seres mitológicos. Outro fator interessante dentro desta mitologia, é que as Kyuubis são detentoras da sabedoria infinita,e podem ouvir e ver tudo em qualquer lugar do mundo. Link, por sua vez, faz muitos questionamentos a Keaton, e o mais curioso disso tudo, é que ela parece saber de tudo que acontece em Termina. Um ser realmente poderoso, não?

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Se Keaton fosse a única referenciação á raposas dentro de “The Legend of Zelda“, seria cômico. Dentro dos povos e mitos que serviram de inspiração para o surgimento de Zelda, os contos ocidentais se destacam, devido ser o local de berço da empresa. O mito das Kitsunes está diretamente ligado a Deusa Inari, detentora do arroz, agricultura, prosperidade e êxito, e também são as mensageiras desta mesma deidade. Grandes poderes, detém grandes responsabilidades, e aqui não foi diferente. Uma vez que a Kitsune descumpre com sua palavra, ela entra em “auto-destruição”. Mas ainda assim, ninguém voltou para contar o que acontece ao enganar um ser destes.

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Do Japão para a Antiga Grécia

A mitologia grega é uma das mais conhecidas ao redor do globo. Isso porque, foi a que mais se destacou e melhor sobreviveu aos dias atuais. Retratando o mundo gerado pela divindade conhecida como Caos, o conjunto de mitos segue também um modelo politeísta. Quando as civilizações remanescentes do culto da Grande Mãe começaram a ser reprimidas, aquela grande Deusa mãe de tudo e todos deixou de ser apenas uma, tal como o Deus primordial, o qual se multi-facetaram em diversos aspectos(divindades), que poderiam representar fenômenos da natureza, aspectos sociais ou ate mesmo políticos. Desta forma, Afrodite associada ao amor, Ártemis a caça, Atena a sabedoria e justiça, Zeus aos Raios, Hades ao submundo e Poseidon ao oceano. Dentre os mitos originados deste panteão em específico, retrataremos o Mito do Minotauro, ou Mito do Rei Minos. Que de forma bem resumida , se trata deste conto :

“Para começar, o Minotauro é filho do Rei de Minos, e nasceu na Ilha de Creta.
Nascido da união de Pasífae e um touro branco, que curiosamente, seria
sacrificado no momento da chegada de Poseidon, o rei dos mares ; Quando o rei
observou o touro branco, ficou admirado e encantado com sua beleza, e não o
sacrificou
, substituindo por outro animal qualquer (achando que o rei dos mares não
iria notar). Esse sacrifício apenas ocorre devido um pedido que o Rei de Minos

havia feito ao grande Deus, e se encontrava endividado devido o cumprimento de
Poseidon. Furioso após a descoberta, o Deus dos Mares amaldiçoa o rei, de tal
modo que sua esposa se apaixona pelo touro qual negou sacrificar.
Surgido dentre
a relação de Pasífae e o Touro, o Minotauro era uma criatura bizarra, em formato
de touro e
humanoide ao mesmo tempo. Preocupado com as consequências, o Rei
não vê outra solução , a não ser
trancafiar a besta no labirinto, na cidade de
Cnossos.
Avançando alguns anos da história, o rei de Minos derrota Atena, que
enfurecida, todos os anos envia 7 homens e mulheres atenienses para o labirinto,
para derrotar a bizarrice
. E durante três anos, a carnificina do Minotauro continuava.
Até que um dia, Teseu, filho de Egeu, vai a creta e enfrenta o minotauro, onde no
meio do caminho ele vai se apaixonar por Ariadne, filha do Rei Minos, ganhando
assim um novelo de lã e uma espada mágica, para derrotar a besta. E assim, o
grande herói derrota o fruto da traição de Minos.”


Óbvio que, estou tratando dos Lynels, de Breath of The Wild. Mesmo que se assemelhem mais á Centauros, os Lynels me lembram muito a lenda do Minotauro. Isso porque, é um ser tão forte que talvez uma única luta não seja suficiente (isso se estiver no início do jogo). Os centauros são poderosos seres da mitologia grega que são metade humanos, e metade quadrúpedes. Há relatos de seres destes que eram monstruosos como os da série Zelda, contudo, em sua grande maioria permaneciam humanoides, e utilizavam de armas mais próximas do comum.

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Notam a semelhança entre os seres? Creio pessoalmente que, os Lynels de BOTW possam ter
sido uma mistura de Centauros com o próprio Minotauro. A agilidade e inteligência de um Centauro, com a brutalidade, força e poderes de fogo de um Minotauro, seria a mistura perfeita para preencher um dos melhores mundos de The Legend of Zelda.

Além disso, muitas armas do jogo são baseadas em armas gregas, o que deixa a história muito mais interessante.Saindo do título mais recente e voltando alguns anos no tempo, teremos as pegasus boots, que tem seu nome diretamente ligado ao cavalo alado da mitologia Grega, o Pégaso. Você vai encontrar este item em The Legend of Zelda : A link to the past, The Legend of Zelda : Links Awakening, The Legend of Zelda: Four Sword Adventures e por fim, The
Legend of Zelda: Minish Cap.

Em The Legend of Zelda: Ocarina of Time, e Cadence of Hyrule (spinoff), você encontrará as Hover Boots, que possuem pequenas asinhas em sua parte inferior, referenciando assim as sandálias do Deus Hermes, a divindade protetora dos viajantes, mágicos, adivinhos e ladrões. Isso ainda, sem citar a Tower Of Hera, presente em diversos títulos da franquia, que é uma clara referência á Hera, esposa de Zeus. Por último, mas não menos importante, teremos Gleeok, um dos chefes de The Legend of Zelda, que pode ser tranquilamente uma referência á Hidra, presente nos contos gregos e romanos.

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Lynel – Breath Of The Wild

Buda também inspirou jogos

Baseado no conto “O fio da Aranha” de Ryunosuke Akutagawa, temos a Dungeon de Skyward Sword ; Ancient Cistern , onde você pode notar claras referências ao próprio Buda, do Budismo Japonês, como uma estátua gigante dele no centro da masmorra. O conto que serviu de inspiração, basicamente é o seguinte:

“Durante uma manhã, enquanto caminhava pela Terra Pura, Buda avistou um lago cheio de lótus, do qual conseguia ver o Jingoku – o “inferno” -. Kandata, era uma das figuras que chamava a atenção dentre todas as criaturas condenadas ao sofrimento. Ele era um ladrão e assassino cruel, mas que uma coisa boa em vida havia feito. Cruzara com uma aranha que iria mata-lo enquanto voltava de um assalto, mas decide que seria injusto com o ser se o matasse sem nenhuma razão.

Comovido pelo condenado, buda joga uma aranha ao reino dos mortos, que começa a tecer sua teia para Kandata, onde ao começar a subir, nota que outros mortos também estavam se aproveitando da oportunidade, e ficou com medo de que, se todos subissem, o excesso de peso poderia romper o fio. Kandata então, tenta garantir exclusividade do fio para sí, mas nesse momento, quando o ego gritou mais alto, o fio se partiu e caira de volta no inferno. Sua falta de compaixão o havia condenado novamente ao sofrimento eterno”

A dungeon parece seguir a mesma estrutura do conto acima, por que no início, temos um lago cristalino com muitas flor de lótus, com uma gigante estátua do profeta ao centro, cheia de Skulltulas e Walltulas, onde, no interior é possível encontrar uma caverna cortada por um rio ensanguentado. O ápice dessa história, é quando Link tem de subir um fio de aranha, e Bokoblins tentam o acompanhar. E eu acho que é nessas horas, que o Link deve agradecer de ser um personagem mudo.

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Uma imagem da Dungeon, Ancient Cistern

Um aspecto presente em diversos povos

A trindade está presente em muitas mitologias ao redor do mundo, como por exemplo a cristã, que retrata pai, filho e espirito santo, a mitologia grega, que retrata Zeus, Hades e Poseidon, como detentores dos treis reinos. Osíris, Isis e Hórus, como a sagrada família. Odin, Vili e Vé, como a santíssima trindade nórdica (vikings). E com Zelda, não poderia ser diferente. Um dos maiores símbolos da série, e mais marcantes é a Triforce, que por coincidência também é dividia em três partes, dedicadas as três Deusas principais da criação ; Nayru, Farore e Din, sendo dividida e entregada a cada um dos três personagens principais da franquia. Link com a força da coragem, Zelda com a força da sabedoria , e Ganondorf com a força do poder. É um elemento muito comum em várias culturas, o que também deixa a história de Zelda pouco mais semelhante a histórias já conhecidas. Creio eu que, esta seja uma das referências mais fáceis de se notar em toda a franquia de jogos.

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Representação das três Deusas na Triforce

Outro mito também relatado em muitas mitologias, é o clássico “Grande Dilúvio“. Para os povos hebraicos, se tratava de uma punição vindo de Yehowah, devido os humanos de sua recente criação estarem vivendo em pecado demasiado. Então, o grande Deus onsciente, onipotente e onipresente envia uma chuva de 40 dias e 40 noites, para aniquilar todos os outros seres remanescentes do pecado. Selecionado por Deus, Noé é o personagem principal deste conto, onde é inspirado pelo senhor dos céus á construir uma arca medindo 300 côvados de comprimento, por 50 de largura e 30 de altura, onde o homem deveria colocar um casal de cada animal que habitava o planeta naquele tempo, para assim, após a grande punição, a vida na Terra continuar.

Em Wind Waker, nós vemos uma sociedade toda moldada em cima de um grande dilúvio. Devido o desaparecimento do herói, os povos haviam ficado indefesos. A Deusa então, atendeu as orações do seu povo remanescente dos céus, e os ordena com que vão para as colinas, pois uma forte chuva iria inundar toda a Terra, de forma que protegesse os Hylians da calamidade, até que um novo herói retornasse. Vale lembrar que, os hebraicos não foram os únicos á citar este grande dilúvio, mas também os gregos, os povos sumérios (épico de Ziusudra), o mito Hindu de Manu, pelos irlandeses, pelos egípcios (enviado pela Deusa leoa Sekhmeth), pelos chineses, pelos aborígenes, pelos australianos, pela polinésia, pelos maias, pelos muíscas, pelos mapuches, pelos hopis e muitos outros povos.

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Link navegando no oceano do dilúvio, Wind Waker.

Em Wind Waker ainda, podemos ver claras inspirações vikings , desde música á visual. Além disso, a ave Helmaroc King, é baseada em Roc, da mitologia persa/árabe. Este ser, nos mitos destes povos se trata de uma ave gigante originada de Garuda e as serpentes Naga, da lua, originais do folclore hindu. Conforme o tempo foi passando, era frequente com que aparecesse na ilha de madagastar, em montanhas próximas da China e na Pérsia, sendo um personagem muito frequente em contos dos marinheiros, onde por fim, é popular pelo conto “As Mil e Uma Noites

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Duendes, Fadas e Deuses de todos os tipos

A mitologia dos povos celtas se trata de uma das mais aclamadas e ricas. Não desmerecendo nenhuma, mas esta é a que mais influencia produtos atualmente, pois contém histórias e fenômenos realmente interessantes, de um dos povos mais inteligentes que pisaram no antigo mundo. Visualmente falando, você vê claramente a influência de vestimenta dos Celtas em Zelda. Como a túnica clássica do Link (apesar de que este, pode estar mais ligado a cultura viking), a aparência dos Hylians (orelhas pontudas, que se assemelham aos elfos e duendes deste povo). Em The Legend Of Zelda : Ocarina of Time, podemos notar que Link monta Epona. O nome Epona em si na verdade deriva de uma Deusa Celta (apesar de ser mais ligada aos povos Gauleses, também podemos encontrar evidências que foi presente nos contos Celtas), protetora da maternidade, fertilidade, abundância, e curiosamente, dos cavalos.

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Além disso, no país de Gales (região onde os habitantes da Grã-Bretanha se refugiavam após invasões dos anglo-saxões vindo dos atuais alemães), nós teremos o mito do Rei Arthur, onde (de forma bem resumida), uma espada é encravada numa rocha, e apenas aquele que fosse digno, poderia retira-la. Dentre toda uma história envolvendo o mago Merlin, uma busca pelo santo Graal e uma espada poderosíssima, dentro do universo de The Legend of Zelda, temos a graciosa Master Sword, espada qual apenas o descendente do herói dos primeiros tempos pode retirar do pedestal. Essa, é uma das cenas mais icônicas em todo LOZ, principalmente por conta do grande salto que a Nintendo deu com Breath of The Wild. Além disso, ao longo de toda a franquia teremos a presença de Fadas, como a Navi. Na cultura Celta, as fadas eram seres da natureza e que viviam em harmonia com a mesma.

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De volta aos mitos Orientais

Dragões são criaturas muito frequentes nos mitos chineses. Isso porque, são seres considerados sagrados, e divindades associadas á sabedoria. Crenças populares atuais ainda mantém suas práticas de culto aos dragões, e é muito frequente (inclusive no Brasil). Pelos povos ocidentais, os dragões foram interpretados como seres voadores, cuspidores de fogo, destruidores e ferozes, de forma muito diferente ao oriente, onde são muito mais pacíficos. Curioso é o fato desta entidade ser relatada ao redor do mundo inteiro, com descrições semelhantes (em grande parte). Em The Legend of Zelda, os dragões estão presentes em muitos jogos. Como por exemplo Valoo, em Wind Waker, e o trio de dragões em Skyward Sword, que estão relacionados a dragões orientais. Enquanto Argorok, em Twilight Princess, se parece um pouco mais com um dos Wyvern, que são répteis semelhantes aos dragões, mas que possuem asas nas patas dianteiras, como uma ave.

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Além disso, em The Legend of Zelda: Ocarina of Time, podemos observar mais um dragão, Volvagia, um dragão que age como os mitos ocidentais, mas sua aparência é Oriental, e se trata de um feroz devorador de Gorons, e um perigo para os habitantes da Death Montain.

Um mito de muitas inspirações

Nossa! The Legend of Zelda se trata de um título com inspirações ao redor de todo o mundo. E é curioso ver como mitos de povos tão distantes podem se assemelhar. As mitologias são uma parte fundamental da humanidade, e eu não acho que devemos nem podemos apagar esta lacuna importante, que cada dia mais vem sendo abandonada. Friamente, espero um dia ver jogos da série que se inspirem em personagens Tupi-Guarani. Se pudesse, poderia ficar horas aqui escrevendo apenas sobre mitologia e Zelda, uma vez que ainda temos muito material para ser dito e explicado, como Picoris, e sua inspiração em Duendes, e uma possível inspiração da Deusa Hylia sobre os povos primitivos da Grande Mãe . Mas por hoje, nossa aventura pela história e os remanescentes mitológicos, termina por aqui, enquanto aguardamos ansiosamente pela sequência do título mais recente da franquia, de forma a averiguar também suas inspirações e raízes.

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[A coluna acima reflete a opinião do redator e não do portal Project N]

Guilherme Morando
Um pequeno apaixonado por "The Legend of Zelda", e amante de jogos em MMO como "Diablo 3" e por fim, gosto muito de jogos indies , principalmente com puzzle.