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No More Heroes 3 – Mirou na insanidade e acertou na genialidade

No More Heroes 3 - Mirou na insanidade e acertou na genialidade

Após anos de espera, em 2017 o diretor responsável pela franquia, Suda 51, ou Goichi (5 1) Suda, anunciou uma sequência para a série iniciada no Nintendo Wii, No More Heroes, com a chegada do episódio 3. Posteriormente, 2 anos depois mais precisamente, um spin-off chamado Travis Strikes Back foi ainda lançado em 2019. E após mais 2 anos de espera, finalmente No More Heroes 3 passou a estar entre nós!

Porém, se você abrir sua eShop nesse momento, ele já não está mais entre os 30 mais vendidos…. Flopou? Não. A questão é que No More Heroes é o exemplo perfeito do que chamamos de “jogo de nicho”, um jogo que agrada um público muito pequeno e específico, porém, agrada MUITO!

Esse público específico foi à loucura com No More Heroes 3, alguns até dizem que foi o seu jogo preferido desse ano. Mas o que faz um jogo ser ao mesmo tempo tão desejado por alguns e tão ignorado por tantos? Será que você também se pergunta: Em qual dos dois grupos eu pertenço?

Com certeza a resposta mais assertiva e direta é: Pense como se No More Heroes 3 fosse uma piada, seria a piada que alguns vão achar graça, e outros acharão somente bobagem.

Afinal, No More Heroes 3 é loucura ou genialidade?

Não é nenhuma novidade que eu, Rodrigo Coelho, estou no grupo que acha graça. Na verdade eu até consegui trazer algumas pessoas ao meu redor pra esse grupo! E hoje eu não vou só analisar No More Heroes 3, mas, ironicamente, vou “explicar a piada” para você entender porque Suda51 é um dos melhores diretores dessa indústria.

PARTE 1 – O sentido do humor

Você sabe porquê você não sente cócegas quando é você quem faz em si mesmo? É porquê o seu cérebro antes de fazer a “auto-cócega” informa ao corpo sobre o tal “plano”, e então seu corpo já está preparado antes de você realizar o ato, você não tem como surpreender seus sentidos…

Boa parte da essência do humor está no fator surpresa. É por isso que você ri quando está andando com um amigo e ele leva aquele tropeção. Seu cérebro não estava esperando que, do nada, seu amigo sofresse um evento inesperado em seu trajeto.

É por isso que a mesma piada, repetidas vezes, perde a graça, não há mais um fator “nossa, eu não estava esperando por isso”.

“Mas Coelho, o que isso tudo tem a ver com uma análise de um jogo?”

Uma obra de comédia, seja ela qual for, e no caso aqui um videogame, possui um recurso que é excelente, mas exigente: Você não sabe o que vem a seguir. E é aqui, que separamos a boa comédia da ruim. Esse elemento, essa “carta” faz um trato com o autor da obra:

-Você vai surpreender seu público como quiser, é um “vale-tudo”, o céu é o limite.

Porém…

-Você VAI conseguir surpreender seu público ao longo de toda obra? Você tem tanta criatividade assim?

Aposto que você ao menos conhece algum daqueles filmes de 3 ou mais horas! Senhor dos Anéis, Vingadores Ultimato, mas você conhece um filme de comédia que dure 3 horas? Provavelmente não. São muitas surpresas, e não pode ficar enjoativo então precisa ser dinâmico, precisa ter variedade, e tudo isso precisa ainda fazer um sentido, né? A obra pode ignorar as leis da física e lógica, mas ela ainda precisa de uma identidade.

Porém, sabe quem tem essa criatividade toda? Suda51.

PARTE 2 – Um Game Design Surpreendente

Se o humor tem relação direta com a surpresa, No More Heroes 3 é engraçado do início ao fim! Suda51 e sua equipe não vão parar de te surpreender até o último segundo do jogo. E mesmo que você não seja lá o cara mais fã de humor do mundo, você sabe qual a vantagem de se jogar um jogo assim? Eu te dou 2 motivos:

1. A surpresa em cada etapa do seu progresso

É claro que em qualquer jogo com um bom game design, cada luta precisa ser resolvida de formas diferentes, com elementos diferentes, e No More Heroes tem isso TAMBÉM! 

Porém, depois de ser inúmeras vezes surpreendido, você entende que simplesmente não tem como saber o que vai acontecer antes da batalha contra os chefes, é basicamente aqui que Suda51 vai exibir sua criatividade. 

É claro que não podemos contar exemplos, afinal, isso afeta drasticamente a experiência, novamente, parte do humor está na surpresa, mas é algo como: você vai, olha seu rival olho a olho, e antes de começar a luta ele te diz que só luta com você se você ganhar dele…. sei lá… numa amarelinha!

E apesar desse ser o pico do humor, podemos ver essa criatividade em TUDO!

Cada novo minigame que aparece nos mapas que você libera, é completamente distinto e você fica ansioso para saber qual o próximo, a cada inimigo que você enfrenta nas salas, tem um design bizarro e carismático. Você vai comprar um item e o vendedor é um bicho engraçado, enfim.

Mas existe um segundo grande ponto que torna o humor de No More Heroes 3 melhor: 

2. Diversidade cultural nas influências e referências

Ok, já entendemos que numa obra humorística, a própria lógica não precisa ser respeitada. E isso é um recurso usado na hora de gerar surpresas e tudo mais. Só que No More Heroes não é só sobre coisas que Suda51 tirou da sua cabeça, mas é também sobre as diversas outras fontes que ele usa, é sério, são muitas!

Referências a jogos, animes, filmes, tem de tudo aqui! E nem só á obras específicas, mas também certos temas culturais, principalmente japoneses. E ele vai usar o fator “comédia não precisa de lógica” para inserir essas inspirações.

Nesse sentido, cabe aqui um elogio extra e a parte para a franquia: ela desenvolveu um identidade que enquadra tanto o perfil oriental quanto ocidental. O protagonista Travis Touchdown é um legítimo “badass” e sua dublagem americana é simplesmente PERFEITA. A propósito, que trabalho ESPETACULAR do dublador Robin Atkin Downes!

A dublagem, inclusive, mostra bem esse ponto, tanto em japonês como em inglês o jogo fica MUITO bom, e é difícil não ficar de um lado nesses casos, apesar de, no caso específico do Travis, o inglês combinar mais. Mas tudo que acontece no jogo é cheio de ‘’japonezice”. E isso é legal pois as referências transitam entre oriente e ocidente, e novamente, te asseguram a sensação de você não ter ideia da próxima referência ou zueira que o jogo vai entregar.

PARTE 3 – Hora De Falar Sério

Embora todo o aspecto do texto seja sobre o humor de No More Heroes, mais especificamente o 3, vale a pena mencionar que felizmente alguns aspectos do jogo são feitas com seriedade, e outros aspectos infelizmente faltou seriedade.

Em No More Heroes 3 você encontrará um sistema de combate sólido e desafios que exigirão estratégia e habilidade/reflexo. É um hack and slash e nesse gênero, o gameplay não pode ser falho, ou piada alguma salvará o jogo. Além disso, a construção dos personagens principais ao longo do jogo e a diversidade de personalidades dos chefes enfrentados também é algo que o game fez muito, muito bem feito.

Agora, infelizmente, existem diversos puxões de orelha para o jogo no aspecto técnico, e CUIDADO, para não misturar o “estilo escrachado” do jogo, com problemas técnicos!

Uma coisa é você ter um personagem específico com uma animação toda estranha, e um design todo bagunçado, outra coisa é ter claras falhas de programação, principalmente nas cidades do jogo, que são abertas para exploração. Temos, por exemplo, uma bagunça na questão de “onde dá para pular e andar e onde não dá”. Tem uma cidade específica que esse problema é absurdamente irritante, quem jogou sabe qual é, e atrapalha o gameplay, pois você precisa caçar missões nessas cidades, e não consegue contar com o visual para saber por onde dá pra ir ou não. Isso é só um exemplo.

Muitas pessoas, inclusive, acham que era melhor NÃO ter essas áreas abertas, não só pelos problemas técnicos, mas também porque perto do restante do jogo, o gameplay nesses trechos acaba sendo a parte enfadonha do jogo.

Resumindo: em termos de gameplay de ação, o jogo é tão sério quanto precisa ser. Em termos técnicos, porém, houve ali um relaxo em alguns pontos. Mesmo aqui, existe uma analogia com o “Loucura ou Genialidade?”. Inclusive, acho está na hora de dar um veredito para essa pergunta!

FINAL – “Loucura ou Genialidade?” Por que não ambos?

A resposta pra pergunta “Loucura ou Genialidade?” é simplesmente: Ambos.

Existe uma carga pesada de conhecimento de arte, cultura e entretenimento no jogo, além da criatividade absurda e escancarada à todo o tempo. Não é só um cara engraçadinho inserindo bobagens e piadas previsíveis. Suda51 e sua equipe inserem esses conteúdos de modo insano!

É um “besteirol”? Provavelmente sim, mas é uma obra que escolheu ser assim por enxergar que esse tipo de obra permite uma liberdade criativa imensa! Existe uma preocupação exímia com a qualidade do jogo como um todo, seja em seu gameplay ou level design ou humor, Suda51 é com certeza um diretor que carrega o estilo japonês de seriedade no trabalho, eu não tenho dúvidas.

Uma outra série da arte/entretenimento que carrega essa essência é a animação Rick e Morty, e não, não estou dizendo que são parecidos, que os temas são semelhantes nem nada do tipo, mas, se você não conhece No More Heroes, mas conhece a animação, deve entender esse texto muito melhor do que quem não conhece os dois. A essência de “besteirol inteligente” é muito presente nas duas obras.

E isso é No More Heroes, o jogo que parece que foi dirigido por duas pessoas: o nerd da sala que senta na frente, e o zuero da sala que senta no fundão. Entretanto, facilmente lhes digo que No More Heroes 3 vai ser mais apreciado por quem busca um jogo com personalidade, criatividade e diversidade cultural do que quem busca somente uma “zuera” descompromissada.

No More Heroes 3 não é um jogo longo, e nem um jogo sem conteúdo. Sua campanha dura entre 12 a 15 horas em média, mas existem extras, sejam tarefinhas, ou missões inseridas ao longo do jogo a se cumprir, e ele tem grandes facilitadores no modo fácil, como defesa automática, mas tem muito desafio incluindo uma quarta dificuldade extra liberada no pós game.  

Ou seja, mesmo sendo um perfeito exemplo de jogo de nicho, No More Heroes 3 pode agradar a muitos tipos de jogadores, desde que eles entendam a proposta do jogo.

Independente se você busca uma experiência fácil e rápida, ou desafiadora e complecionista, sua jornada pelo jogo será marcada por inúmeras loucuras geniais ao longo do caminho, combates épicos e uma nova surpresa que Suda51 preparou pra te pegar desprevenido e te arrancar ao menos um bom sorriso.